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Ruza Amon
Editoriais | Tablóide Zaffari | Bourbon:
Edição nº 0 | Ano 15 | Abril de 2010
» "As descobertas sobre nossas mães"
Usualmente, nossas primeiras e mais remotas lembranças são flashes povoados pela figura de uma jovem mulher que chamaremos pelo resto da vida de mãe. São cenas rápidas, que nos vêm à mente como cartões de cinema mudo, onde ela nos leva no colo, serve nossa comida ou arruma nossa roupa. Naquelas imagens, somos crianças de primeira infância, um pouco mais do que bebês, fase em que acreditamos que aquela linda mulher vive exclusivamente para nós e por nós. Essa ilusão, tão breve quanto deliciosa, termina com uma dura descoberta: os papéis que ela desempenha são muitos. Levemente enciumados e inseguros, constatamos que, além de nossa mãe, ela é também mãe de nossos irmãos, esposa de nosso pai e – (surpresa!) – filha de outra mulher a quem chama de mãe, como nós. (“Para ser filho não tem que ser criança?” – já ouvi um menino perguntar a seu pai, escandalizado.) As descobertas sobre nossa mãe não param por aí. Outras faces se revelam ao longo da nossa trajetória em direção à vida adulta, trajetória da qual ela é a mais importante personagem. Em dias de faxina, por exemplo, tão perto das vassouras e tão zelosa de um chão recém polido, inúmeras vezes ela ficou meio bruxa. Nas noites em que à beira da cama leu contos infantis para embalar nossos sonhos, transformava-se em uma das fadas do livro de histórias. Brincando de esconde-esconde com os filhos ou fazendo pipocas em dia de chuva, virava criança e parceira de farra. Em frente ao espelho, preparando-se para uma festa ou jantar elegante, quantas vezes elas nos pareceu uma verdadeira rainha! Assim fomos formando nossa coleção de lembranças, como quem monta um painel de fotos na parede da memória, ao qual se recorre até o fim da vida. Recentemente, soube de um acontecimento muito nobre e importante: uma mulher de 76 anos contou com a presença de seus seis filhos e de 30 netos em sua formatura de curso superior. Tendo dedicado boa parte de sua vida à criação dos filhos, ela havia se tornado empresária depois dos 50 anos, e agora realizava o sonho de ter um diploma. Definitivamente, uma mulher incansável na projeção de papéis e exemplos positivos. As jovens que neste momento estão lendo esta coluna, concentradas no desafio de ser mãe, esposa, filha, profissional e indivíduo ao mesmo tempo, por certo não se dão conta de estarem em plena construção de uma existência tão relevante. Por mais singela que seja sua rotina, a vida de uma mãe lança todos os significados desta linda e singular palavra, que ao ser pronunciada, evoca o que há de mais amoroso e protetor no mundo.
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