Ruza Amon
Editoriais | Tablóide Zaffari | Bourbon:
Edição nº 0 | Ano 15 | Abril de 2010

» "Fiambres, queijos e vinhos rendem uma boa história..."

Uma história de suspense de autoria da inglesa Daphne du Maurier (1907-1989) proporcionou à minha adolescência algumas semanas de prazerosa companhia. Com o título original “Jamaica Inn” (em Português “A Estalagem Maldita”), o livro teve sua história filmada por Alfred Hitchcock, na década de 40. O cineasta prestigiou Daphne du Maurier duas vezes mais, transpondo para o cinema “Rebecca” e “Os pássaros”.

Voltando ao livro “Jamaica Inn”, embora o prazer da leitura tenha permanecido muito forte nas minhas lembranças, para mim não são claros os detalhes do enredo, com exceção de uma única cena. Nela, uma jovem que acaba de perder a mãe faz uma longa viagem pelo interior da Inglaterra para encontrar a tia que irá adotá-la. Quando finalmente chega à estalagem conduzida por uma carruagem, é noite alta. A casa está escura e em silêncio, e ouve-se apenas o barulho do vento e dos cavalos nervosos e agitados. O cocheiro se retira com pressa tomado de maus pressentimentos, enquanto a moça é recebida pela tia que a conduz à cozinha para dar a ela algo de comer. O grande fogão, responsável pelo aquecimento da casa durante todo o dia, já está apagado. A tia, portanto, improvisa uma refeição oferecendo à moça um pouco de pão, vinho e presunto. Exatamente como na história, para mim também era inverno, e eu já estava aconchegada sob as cobertas e com a minha própria casa às escuras. Mesmo assim, a refeição feita pela personagem me pareceu tão apetitosa que foi impossível não descer até a cozinha para preparar um sanduíche de pão e presunto Meu sanduíche, no entanto, era composto de pão de forma e presunto cozido e fatiado, pois na minha despensa eu não encontraria uma perna inteira de presunto curado e defumado como é de se imaginar que seria a apresentação daquele alimento em pleno século 19. O pão servido à jovem Mary Yellan tampouco seria feito de puro trigo, e sim de misturas com outros cereais utilizados na confecção doméstica de pães rústicos. Grandes e cascudos, eles também poderiam conter frutas e sementes, o que os transformava em alimento de grande substância. Atualmente, deliciosas versões de pães primevos são encontradas nas padarias mais refinadas, assim como opções infindáveis de fiambres preparados à moda antiga e também em versões bem ao gosto do momento. Copas, salames, peito de peru e de chester, presuntos e apresuntados continuam sendo uma refeição completa, especialmente se acompanhados de pão e de vinho. Tomando a obra de Daphne du Maurier como pano de fundo, podemos apostar numa noite fria e ventosa para degustar esta combinação infalível de alimentos milenares. No lugar de uma tia apreensiva e taciturna, eu sugiro a companhia daqueles amigos divertidíssimos e bem-dispostos, que depois da tábua de fiambres, dos queijos e do vinho sejam parceiros para assistir um dos grandes clássicos de Alfred Hitchcock, deixando-se arrepiar noite adentro pelo mestre do suspense...

 

Veja também:

» Coluna (Con)vivências
Revista Estilo Zaffari

» Editoriais
Tablóide Zaffari | Bourbon