Ruza Amon
Editoriais | Tablóide Zaffari | Bourbon:
Edição nº 0 | Ano 15 | Março de 2010

» "“Investindo na relação”"

Não importa se é uma Brasília amarela ou uma Mercedes platinada; o carro da gente é o carro da gente. Companheiro de rotina e de aventuras, ele será sempre defendido com unhas e dentes, não havendo espaço para críticas nem desfeitas. Afinal, carro é como marido: ninguém pode falar mal dele. Só a gente mesmo. Se de manhã é manhoso, na estrada é impetuoso ou no posto de combustível é meio guloso, reclama-se um pouquinho, mas depois, releva-se tudo. Amor incondicional é assim mesmo. E onde existe amor, existe ciúme. Tem dono que não empresta o carro, tem dono que não permite lanches a bordo, tem dono que não chega perto do litoral com medo da ferrugem. Existem os que não abrem mão de lavar seu carrinho pessoalmente aos sábados, e outros que têm dia e hora agendados para passar uma cera ou silicone. Há quem veja exagero nisso, mas um banho de espuma uma vez por semana não é nenhum luxo, e para quem vive correndo, o dry-cleaning do shopping é uma opção prática e rápida. Na hora de abastecer, pedir para olhar se está tudo bem com o óleo, a água e a bateria não é capricho; é apenas obrigação. Pneus e freios em dia, nem se fala: é compromisso com a segurança da família toda. Um tapetinho zero quilômetro, um perfuminho no porta-luvas e uma flanela estalando de nova, bom... daí já é puro carinho! Por outro lado, jogar papéis nas laterais das portas sem retirá-los no mesmo dia, encher o banco de trás com sacolas ‘sem-destino’ ou carregar no porta-malas objetos não identificados, não se admite. Afinal, carro não é armário, não é depósito, e muito menos arquivo morto. Com o mesmo capricho que mantemos nossa casa e o nosso próprio visual, devemos tratar esse fiel escudeiro. Afinal, as qualidades que nos moveram a comprá-lo permanecem com ele, e a elas somam-se ainda outras tantas, geralmente por nós decantadas na hora de revendê-lo: “Nunca bateu, nunca pegou estrada de terra, nunca transportou criança nem cachorro, nunca isso, nunca aquilo...”, é o que costumamos dizer ao avaliador, enquanto ele faz um muxoxo e vasculha o chassi em busca de cicatrizes profundas. (Sim, porque os arranhões nos quatro quadrantes da lataria já foram meticulosamente anotados na ficha...) Mas o duro na hora de trocar nosso carrinho por um novo é ir com ele até a revenda sem a perspectiva de levá-lo de volta pra casa. Será que vão colocá-lo para dormir no sereno? Será que o novo dono é um cara sensível? E se ao cruzar por ele no trânsito ele estiver com expressão ressentida? Ai, quantos dramas acompanham essa troca (além do carnê do consórcio, e claro...). Porém, o carro novo, ao deslizar pelas ruas da cidade como uma nave, vai nos fazer esquecer antigos amores, derramando sobre nós seu perfume inconfundível. E mais uma vez se iniciará uma troca de mútuos cuidados: dele receberemos conforto, proteção e segurança, ao que responderemos com revisões mecânicas, limpeza e prudência. Não é assim que se constroem as relações?

Veja também:

» Coluna (Con)vivências
Revista Estilo Zaffari

» Editoriais
Tablóide Zaffari | Bourbon