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Ruza Amon
Coluna Con(vivências) | Revista Estilo Zaffari
Edição nº 43 | Ano 8 | Junho 2007
» "Amigos para todas as horas "
“Quem tem amigos tem tudo”, é a crença da maioria das pessoas. Já os pessimistas acham que “Ninguém é amigo de ninguém”. Os menos radicais tem alguma esperança. Pelo menos no cachorro. Vinícius de Moraes simplificou o assunto garantindo: “O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado”. Mas que horror! Na minha opinião, não precisamos apelar nem para a bebida nem para os bichos de estimação. Bons amigos ainda são em forma de gente. Encontrei muitos, vida afora, e acho que fui aprendendo a conhecê-los, reconhecê-los e poupá-los. Amizade não é tarefa para uma única pessoa, e temos de ter competência para montar uma equipe de amigos. Isso mesmo. Não vá sobrecarregando uma única criatura, tornando-a responsável solitária por toda sua “Amizade”. Ela haverá de se cansar, pois ninguém é louco de nos carregar sozinho nas costas.
E tem mais: cada um tem uma vocação. Tem aqueles amigos dos momentos difíceis, que gostam de ouvir desgraça. Quando estamos com vozinha feliz, eles se irritam. “Não tem novidades? Tá tudo bem, mesmo? Então te ligo outra hora”. E tem amigo que só gosta de alegria, festa, prosperidade, passeio astral e comida boa. O assunto é depressão? Falta de dinheiro? Morte na família? Carro estragado? Não telefonem pra ele. Alguém pode até dizer: ah, uma criatura assim não pode ser amiga! Pode, sim. E bem importante, porque não é fácil arrumar companhia pra se viver momentos bons. Sabem por quê? Porque na tristeza, tudo que se deseja é uma vítima pra ouvir nossas mazelas, porque deprimidos, não vamos mesmo muito longe. O ombro amigo só precisa entender um pouquinho de fossa (e quem não entende?), pois a única programação será lamber nossas feridas. Já na alegria, exigimos compatibilidade. Queremos pessoas com o mesmo tipo de humor, o mesmo gosto e a mesma disponibilidade de agenda. Experimentem planejar uma viagem para a Costa Malfitana, por exemplo, e observem o tempo que se leva até encontrar quem queira e que possa nos fazer companhia. Nós mesmos não somos boa parceria para tudo e para todos. A emergência e o compromisso nos mobilizam mais do que a programação festiva, quando só o prazer está em jogo e nos sentimos à vontade para dizer não. Portanto, sejamos contemporâneos, desobrigando nossos amigos a terem por nós uma amizade universal, pois este pode ser um grande equívoco.
Porém, de acordo com uma rápida pesquisa feita antes de fechar a coluna, existem coisas intoleráveis vindas de um amigo ou amiga, não importando qual seja sua categoria:
• Apresentar a gente para pretendente nada a ver (e sem avisar)
• Roubar da gente pretendente tudo a ver
• Sumir quando arruma um pretendente
• Fazer fofoca da desgraça que ouviu a gente contar
• Pedir dinheiro emprestado e não devolver
Minha crença em amizade faz eu afirmar com segurança: até quem não acredita em amigos, os tem. Não nos livraremos deles facilmente. E não sou eu quem diz, é Nelson Rodrigues: “A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real”. Falou... |