Ruza Amon
Coluna Con(vivências) | Revista Estilo Zaffari
Edição nº 42 | Ano 8 | Abril de 2007

» "Eletrodomésticos "
A sutil ditadura da linha branca

É bom não negligenciarmos a importância dos eletrodomésticos clássicos só por causa do sucesso dos tocadores de MP3, câmeras digitais, celulares e pen drives. A geladeira, por exemplo, em breve estará deixando de ser uma simples despensa climatizada. Já existem versões que administram as compras da casa via internet e comandam a casa inteira através de um painel inteligente instalado na porta. Pagamento da faxineira, fechamento de janelas, desligamento do motor da piscina, hora de dar comida para o gato, é tudo com elas. Já fico imaginando que o próximo passo da indústria eletrônica seja reproduzir nessas geladeiras (pelo menos uma vez por semana) a cara de mau-humor típica de quem se dedica unicamente ao lar, com o objetivo de torná-las mais legítimas... E se elas desenvolverem instinto assassino e envenenarem a comida dos maridos? Vai ser preciso muito cuidado. Quem é chegado num assalto à geladeira durante a noite deve ir se preparando porque a tendência do politicamente-correto vai tomar conta desses novos modelos. Comprometidas com hábitos saudáveis, elas certamente virão com horários de abertura de porta programados de fábrica. Não vai adiantar insistir, e muito menos seduzir, pois mesmo que o design as torne magrinhas, chiques e falantes, elas continuarão sendo frias, com um cofre de gelo no lugar do coração, enfim, verdadeiras... geladeiras. Enquanto o futuro não vem, a única queixa que pesa contra os refrigeradores é de serem responsáveis por todos os excessos gastronômicos da família. Aliás, me comove ver esses paquidermes elétricos tapados de imãs publicitários, como se fossem condecorações burlescas por serviços prestados contra nossa forma física.

Menos polêmicos e cada vez mais dominantes, os televisores estão de volta à sala de estar graças à elegância dos aparelhos de plasma. Na maior parte das vezes, a tevê é companheira e agregadora, mas acidentes acontecem. Vejam o caso de um amigo meu. Para acompanhar o último jogo do campeonato nacional de futebol, ele buscou desesperadamente por toda a casa um aparelho de tevê que estivesse livre. Na sala, a mulher via um filme imperdível. No quarto do casal, a filha assistia a um DVD da Cinderela, alugado justamente para que a mãe fosse deixada em paz vendo o filme imperdível. Ele correu ao quarto da empregada, onde encontrou um aparelho desligado. Apertando com ânsia todos os botões, sob o olhar fulminante da cozinheira, perguntou:

- Não funciona?

- Funcionava muito bem até o senhor mexer no bombril – respondeu a dona da tevê, cheia de rancor.

- Não pega tevê a cabo?

- O único cabo que ela pega é aquele ali – disse ela, mostrando a chave de fenda usada para trocar os canais.

Meu amigo não se deixou intimidar. Mesmo sob forte pressão e hostilidade, pediu emprestado o radinho de pilha da empregada e, ali mesmo, entre uma pilha de roupas sujas e o aspirador de pó, entregou-se às emoções da partida final, que infelizmente acabou em derrota para o time e para o casamento. Pensando em todos esses fatos, eu fico meio assustada com a importância dos membros eletrodomésticos da família, pois se hoje já se revoltam, tomam partido, corrompem e jogam pesado, que dirá quando chegarem os propagados tempos da inteligência artificial. Haveremos de ter muito cuidado.

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