Ruza Amon
Coluna Con(vivências) | Revista Estilo Zaffari
Edição nº 40 | Ano 8 | Outubro de 2006

» "Carnaval de inverno"
Cadê o bom-senso, o bom-gosto, o bom-tudo?

Até a última liquidação de inverno chegar, eu não estava plenamente consciente da importância simbólica dos pés. Saí pelas lojas com a intenção de renovar minha frota de botas, mas o que eu vivi foi uma experiência psicanalítica. Na sua grande maioria, os modelos que eu encontrei eram inarráveis objetos alegóricos, cujas combinações de enfeites, modelagens e formatos de saltos sugeriam personagens extravagantes e indecifráveis. A galeria iniciava com uma bota rasteira em camurça e com amarras rústicas, na qual eu me senti uma verdadeira caçadora de focas. Uma outra, com bico fino e ponteira metálica, não faria feio num pistoleiro do velho oeste, se não fosse o tom rosa-bebê. Ainda no clima western, tinha uma dourada de cano médio, salto delgado e cadarços cruzados perna acima, tipo dona de saloon.
- Quer provar?
- Não é bem meu gênero, acho que sou mais básica...
- Ah, então tem essa toda branca, com salto de acrílico e fivela de coração. Tá saindo muito!
Quem saiu muito, muito rápido fui eu, em busca da próxima loja. Da vitrine, já senti o drama: tinha que escolher entre ser uma amazona sadomasoquista ou uma Carmen Miranda técno, em botas prateadas de cano longo, decorada com araras e samambaias. E que tal aquele modelo em patchwork, tipo cartela de estofados para automóveis? Não dá.
- Salto anabela com sola de borracha, gênero ‘homem na lua’, não gosta?
(Que chata, essa cliente!) Resolvi, então, dar uma chance à vendedora:
-Tem bota zero? Zero franja, zero brilho, zero aba, zero tope, zero tudo?
- Não tem. Aliás, em 36, até aquela amarelo-ovo com pesponto australiano e salto carretel já acabou.
- Que pena...
Não foi a imaginação dos fabricantes o que me impressionou. Foi o sucesso dos modelos, evidenciando as milhares de ‘personas’ aprisionadas dentro de nós, mulheres. Talvez as botas estejam fazendo o papel dos chapéus do século 18, que davam vazão à imaginação da época ostentando plumas, peles, pedrarias, passarinhos empalhados, flores naturais, frutas, insetos e roedores. E dando uma de analista, fui mais longe: “Fantasias na cabeça, tudo bem. Fecha. Mas o que significa quando elas vão para os pés? Desilusão coletiva?” E segui me perguntando: “Se eu escolher aquela com pingente em forma de quebrador de gelo, viro uma mulher perigosa? E a bojuda, estilo art déco, posso usar como vaso de flores enquanto o próximo inverno não vem?”
Tendo a liquidação me causado tantos questionamentos, suspendi as compras com medo de me ver pulando para dentro de uma daquelas botas gritando: “é minha! ninguém tasca, eu vi primeiro”. Resolvi esperar os lançamentos de outono 2007, torcendo para encontrar as alegorias em qualquer outro acessório que não me leve – literalmente a passos largos – ao encontro desta mulher desconhecida que habita dentro de mim.

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