Ruza Amon
Coluna Con(vivências) | Revista Estilo Zaffari
Edição nº 39 | Ano 8 | Agosto de 2006

» "Abaixo os guardanapos de organdi"
E viva o improviso, o humor e a imaginação

De tudo que eu já li sobre etiqueta social, a abordagem mais interessante foi um texto muito querido e libertador intitulado “Quando você convida – sem grana”, do livro “Na sala com Danuza” (1992). Nele, a mensagem da vipérrima jornalista Danuza Leão é ‘divirtam-se de qualquer maneira’, estímulo que na época caiu como uma luva, pois um plano econômico havia deixado todo mundo literalmente sem dinheiro. O livro se propunha a oferecer uma alternativa aos manuais tradicionais de etiqueta, privilegiando o bom senso e a espontaneidade. O texto sobre recepções feitas com pouquíssimos recursos, na verdade não era dedicado apenas às vítimas do calote, mas àqueles que há muito estavam ‘duros’ (como a própria Danuza se encontrava) e àqueles que em tempo algum tiveram dinheiro. “Guardanapos de organdi? Quem vai lavar e engomar? Quando vejo, fico paralisada, nem toco”, dramatiza a autora, recomendando guardanapos de papel enormes e coloridos. Sua mobília já viu dias melhores? receba à luz de velas. Baterias de cristais desfalcadas? misture copos de cores e tamanhos diferentes e toque em frente. A sala não tem ar condicionado? espere para receber no outono. Cada convidado pode muito bem levar um prato ou uma bebida e - com bastante gelo e boa música - a festa sai do chão, garante o livro.
A principal instrução, no entanto, é sobre quem convidar. A socialite sugere um mix criterioso, incluindo políticos e jornalistas (me convidem); alguém com uma profissão insólita; uma psicanalista bem falante; um grande sedutor; mulheres bonitas (segundo ela, desnecessário que sejam inteligentes); pessoas charmosas, solteiras e encantadoras, de sexos variados. Deve funcionar. O difícil é encontrar toda essa gente disponível.
Porém, cá pra nós, nem sempre os extravagantes são os convidados. Um dos personagens classificados por Ruy Castro, no livro “Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema”, é um artista plástico que um dia reuniu 50 amigos para uma feijoada. Não havendo panelas suficientes no apartamento, as carnes foram postas de molho no bidê do banheiro, façanha que concedeu ao anfitrião a alcunha de Hugo Bidet (grafado à francesa, é claro). Outro caso curioso é de um gramadense que conheci pessoalmente, cuja casa funcionava em ritmo de open house. No telhado, ele tinha mandado instalar um letreiro em néon com a palavra “Tô”. Se estivesse ligado, era só chegar. Danuza Leão teria adorado conhecê-lo, e se ele fosse morador de Ipanema, certamente teria sido citado por Ruy Castro.
Festas chiquérrimas são agradáveis e impressionantes, mas depois de um tempo, nas nossas lembranças elas ficam todas iguais. Inesquecíveis são os anfitriões exóticos e suas festas insólitas, que serão sempre a recompensa máxima de quem saiu de casa sem grandes expectativas.

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