Ruza Amon
Coluna Con(vivências) | Revista Estilo Zaffari
Edição nº 38 | Ano 8 | Maio de 2006

» "Elevadores"
Proximidade para dançar um tango mas não para trocar palavras

Porto Alegre ainda preserva um ritmo que a torna uma das capitais de melhor qualidade de vida do país. Mesmo assim, o pessoal anda nervoso no trânsito, e nos contatos pessoais, temos economizado muitos bons-dias e boas-tardes. Tá certo que pelas calçadas e praças não vamos dizê-los a pessoas que não conhecemos. Porém, em ambientes fechados (não sendo corredor de edifício ou de shopping) acho que ainda se usa pelo menos um aceno com a cabeça. E os elevadores, a que classificação pertencem? Seriam eles apenas corredores verticais? Até pode ser. Mas às vezes, eles são tão minúsculos que não sabemos onde colocar as mãos nem onde pousar o olhar.

Outro dia, eu estava por entrar num elevador dessas proporções, e, sendo alvo comum e simultâneo de quatro pares de olhos, resolvi arriscar um bom-dia. Um coral contrariado soou na minha nuca, como se eu tivesse proposto uma intimidade além da conta. A vida urbana tem disso. Estamos tão próximos que poderíamos dançar um tango, mas não íntimos a ponto de trocarmos palavras. Portanto, em elevadores recomendo: cumprimentem no máximo pessoas de mais idade, pois essas (ao menos na minha experiência) são mais abertas a isso. Também evitem falar no celular, pois para quem entra, a sensação é de estar invadindo uma cabine telefônica em pleno uso. Pensando bem, a ética do uso de elevadores daria quase um best seller. Outro dia, eu estava numa fila de um tímido elevador de um prédio antigo. Estávamos no sexto andar e resolvi seguir um pequeno grupo que encarou a escada na fé de que “morro abaixo todo santo ajuda”.

Com incredulidade vi dois adeptos da Lei de Gérson descerem apenas um andar para tomar o elevador vazio que subia antes que ele chegasse ao andar da fila. E também existem alguns fumantes que, estando sozinhos, não resistem à transgressão de deixar sua marca, para o dissabor de quem entra depois. E a lista de queixas sobre o mau uso do elevador prossegue: trancá-lo, por exemplo, para terminar um papinho com a vizinha, pode causar aos que o esperam nos outros andares aquele mau-humor matinal que só termina ao anoitecer. Pessoas que não dão espaço ou que empurram a gente com seus pertences também provocam uma raiva desproporcional ao fato, mas provocam. Na verdade, andei medindo: qualquer pessoa ou objeto que se aproxime a menos de 50 centímetros (sem a nossa devida licença, é claro!) será considerado intruso. Em elevadores, a medida reduzida para 30 centímetros, e é o máximo que podemos negociar. Trata-se do espaço aéreo da privacidade e do individualismo, e não é de bom tom invadi-lo.

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